Reddit, Imgur e a amnésia da internet

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Reddit, Imgur e a amnésia da internet

Reddit está prestes a sofrer uma grande perda de memória: o Imgur, serviço de hospedagem de imagens, vídeos e GIFs que nasceu dentro da rede social, irá remover todo o conteúdo adulto (NSFW) de sua plataforma, bem como postagens que não estejam ligadas a contas de usuários; as mudanças entrarão em vigor no dia 15 de maio de 2023.

A mudança de atitude do Imgur, em expurgar conteúdos para se tornar mais comercialmente viável, é mais um caso de “perda de memória” da história da internet, em que muitos conteúdos postados nos últimos 14 anos sumirão do dia para a noite.

O Imgur anunciou a mudança em seus Termos de Serviço na última quarta-feira (19). Um dos motivos dados para a mudança de comportamento foi de que, embora fosse permitido aos usuários publicarem conteúdos NSFW, haviam restrições para postagens na forma de galerias completas, ou de imagens, vídeos e GIsFs adultos como comentários em outras publicações.

Basicamente, o Imgur permitia a postagem individual de pr0n, mas muitos não sabiam disso, e eram notificados por violação dos Termos e das Regras da Comunidade. Nesse formato, valia tanto subir um conteúdo diretamente, pelo site ou pelos apps, ou por serviços aos quais a plataforma atendia, no que o Reddit era o principal.

De fato, o Imgur nasceu dentro do Reddit. Em 2009, Alan Schaaf anunciou um novo serviço de hospedagem de imagens, na época em que estudava Ciência da Computação na Universidade de Ohio; a plataforma foi descrita como uma alternativa aos (na época) grandes repositórios gratuitos, como ImageShack e Photobucket, em que o desenvolvedor prometia que seu produto “não seria uma porcaria” como os demais.

A ideia inicial por trás do Imgur era ser um serviço de hospedagem flexível e democrático, que abrigaria todo e qualquer conteúdo, mesmo o adulto, e com a liberdade de postar diretamente pelo perfil do Reddit, no que o armazenamento seria automático e não ligado a criação de uma conta local. Ele foi usado como o repositório oficial da rede social até 2016, quando lançou o seu serviço próprio, que não aceita pr0n.

Isso foi feito porque, na época, a plataforma buscava se livrar do fantasma do passado, por promover subrreditorias essencialmente criminosas, como a r/Jailbait (expurgada em 2011); o Reddit havia conseguido limpar sua barra com Apple e Google apenas recentemente, os apps móveis oficiais chegaram às respectivas lojas em 2015, com filtros anti-pr0n poderosos.

Ainda que a opção de não exibir NSFW venha ativa por padrão, é possível desligá-la mesmo no iPhone, diferente do que acontece com outros aplicativos, como o Telegram, que bloqueia todos os grupos identificados como 18+ em dispositivos da maçã.

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Mesmo tendo perdido o assento de servidor de imagens padrão, o Imgur continuou sendo usado ativamente pela comunidade do Reddit, e por outros usuários de fora, principalmente por nunca barrar a publicação e armazenamento de conteúdos pr0n; de fato, a quase totalidade das subrreditorias de cunho adulto dependem do serviço, tornando o anúncio da plataforma um problema e tanto.

No anúncio oficial, fica clara a intenção do Imgur de tornar-se uma empresa rentável, embora diga que a medida de apagar postagens 18+ e ilegais (provavelmente materiais que infringem direitos autorais, como scans de revistas e livros, o que continua sendo uma tremenda fonte de problemas), tenha sido tomada para “proteger a comunidade e seus negócios”. Investidores, bancos e processadoras de pagamentos, como VISA, MasterCard e outras, já demonstraram com o ataque ao OnlyFans (que não deu certo) não serem fãs de pr0n.

O grande problema, para os usuários, é que a decisão do Imgur em expurgar todo o pr0n e conteúdos não ligados a contas registradas, coloca em risco um acervo gigantesco de imagens, fotos, artes originais, GIFs, vídeos e animações, armazenados por 14 anos. O tempo hábil para que o público salve os conteúdos, de um mês, é muito curto, e muitos conteúdos foram publicados sem um dono ligado a eles. Quando o prazo acabar, boa parte do Reddit passará a exibir, em suas postagens, inúmeros links quebrados.

O Imgur avisa que nudez artística ainda será permitida, mas não garante nada, já que o sistema de moderação será via IA, e este pode disparar falsos positivos. Ou seja, o site recomenda seus usuários a não usá-lo para salvar conteúdos sugestivos.

Não é essa a primeira vez que isso acontece, e nem será a última. Tanto o ImageShack quanto o Photobucket, plataformas que o Imgur foi criado para ser diferente (e não foi), em determinado ponto expurgaram conteúdos postados por contas gratuitas, quando se moveram para o formato de assinaturas; para adicionar insulto à injúria, o ImageShack começou a exibir anúncios nos links quebrados, transformando vários posts antigos de redes sociais em vitrines.

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Com o Tumblr foi o mesmo. Após a Apple banir o aplicativo da App Store, sob acusações de que a rede continha postagens de pornografia infantil, a Verizon, então dona da plataforma através da compra do Yahoo!, atomizou todo o pr0n e NSFW, salvo conteúdo noticioso ou artístico, ou fotos documentais.

O público obviamente fugiu em massa, visto que o grosso do acesso do Tumblr era pr0n. O site foi posteriormente vendido para a dona do WordPress por ridículos US$ 3 milhões (Marissa Mayer, ex-CEO do Yahoo!, havia pago US$ 1,1 bilhão), sob a promessa de nunca restaurar conteúdos 18+ (por isso que o PornHub/MindGeek não conseguiu comprar), mas hoje, é possível postar nudez novamente. Pr0n, ainda não.

A bem da verdade, a internet na última década “evoluiu” para uma entidade de memória volátil, tal qual um pente de memória RAM, que só armazena o que lá está contido enquanto ligado. Ao longo do tempo, vimos diversos conteúdos se perderem na história, de serviços de hospedagem diversos, incluindo os já mencionados ImageShack e Photobucket, que embora ainda ativos, exterminaram todas as fotos e vídeos postados por contas gratuitas, quando fecharam o acesso livre.

Este entendimento pode ser estendido para o formato SaaS (Software como um Serviço), que companhias buscam evoluir para o XaaS, em que o usuário não é dono de nenhum software, game ou outro produto, que só permanece ativo enquanto for rentável. Seu desligamento leva consigo inúmeros conteúdos, que, muitas vezes, não podem ser arquivados.

Ao mesmo tempo, iniciativas para preservar a memória da web, e conter a crescente amnésia do setor, enfrentam resistência. A Nintendo, por exemplo, é notória adversária de tudo que remeta à emulação e arquivamento de seus produtos e jogos, mesmo para fins de pesquisa; já o Internet Archive perdeu recentemente uma batalha contra editoras nos Estados Unidos, pela prática de empréstimo de e-books, no que a Justiça entendeu como pirataria.

O caso do Imgur apenas agrava o cenário de esquecimento da internet atual, em que nada fica arquivado para sempre, por um ou outro motivo.

Fonte: PC Gamer

 

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